Histórias inspiradoras de mulheres reais - Raísa

“Olá! Meu nome é Raísa, tenho 31 anos e gostaria de compartilhar com vocês a história do meu relacionamento com a comida e com o corpo. Foi na adolescência que eu percebi que havia algo de errado com o meu comportamento alimentar. Eu estudava pela manhã e passava quase todas as tardes sozinha em casa, e ocupava o meu tempo em frente à televisão, comendo. Na grande maioria das vezes, doces. Mas o que começou a me incomodar foi que eu não conseguia parar de comer. Eu comia tudo o que tinha de guloseimas em casa. E quando não tinha nada mais pronto para comer, eu inventava, misturava ou cozinhava, ou pegava o pouco dinheiro que eu tinha e ia até o supermercado comprar. Quando todas as opções mais apetitosas acabavam eu partia para o pão, o resto do almoço, procurava no congelador alguma coisa que eu pudesse descongelar e comer, etc.


Eu só parava quando meu estômago não aguentava mais de tão cheio. Daí eu me sentia mal fisicamente por estar empanturrada e emocionalmente por comer tão descontroladamente. E isso acontecia todos os dias. Eu sentia muita vergonha daquele meu comportamento, vergonha de as pessoas descobrirem, vergonha por eu estar engordando, vergonha por eu utilizar a comida como companhia. Foi uma fase muito pesada, difícil, triste.


As minhas roupas não serviam mais, eu mal me olhava no espelho, me achava feia, gorda, inútil e me sentia culpada, pois achava que a responsabilidade por eu estar agindo daquela maneira era toda e só minha. Entrei em depressão e me isolei ainda mais. Foi aí que eu comecei a fazer as dietas mais loucas, por conta própria. Ficava horas sem comer, comia muito pouco, restringia todos os alimentos que eu achava que eram “vilões”, comia somente os alimentos que eu considerava “light”. Fiz até uma dieta da sopa de legumes, que era para ser por 7 dias. Porém a segui por mais de um mês. É claro que eu emagreci. Bastante e em pouquíssimo tempo. Mas aliado a isso eu parei de menstruar e perdi 50% dos meus cabelos.

E depois de tanto restringir, quando parei com a dieta para recomeçar a comer normalmente, eu voltei a ter as compulsões alimentares. E naquele momento a minha vontade compulsiva era de comer tudo o que eu tinha restringido durante a dieta, inclusive os alimentos mais simples, como feijão. Eu me sentia completamente refém da comida, não tinha controle sobre mim mesma. Foi aí que iniciaram os ciclos de restrição-compulsão. Eu tinha as compulsões, depois disso me sentia triste e com raiva, daí iniciava uma nova dieta de restrição, para logo depois cair na compulsão novamente.


A minha vida girava em torno disso. Eu não conseguia fazer nada por conta das compulsões. Aceitar convite para sair era muito raro, pois ou eu havia tido uma compulsão e estava me sentindo péssima para querer sair, ou eu estava na fase de restrição e não queria sair com medo de que acabaria comendo. O meu estado de humor variava conforme o ciclo de restrição-compulsão, era uma montanha-russa. Nessa época descobri os laxantes. Eu tomava praticamente todos os dias e me pegava em situações embaraçosas por ter dores de barriga horríveis e “urgentes” quando eu estava fora de casa.


Entrei na vida adulta, fui morar com o meu namorado, comecei a estudar à noite e trabalhar de dia, e não tendo mais aquele tempo sozinha e com uma rotina bem corrida, as minhas compulsões cessaram. Comecei a tentar me alimentar de uma forma mais equilibrada durante a semana e fui perdendo peso aos poucos. Estava me sentindo bem com o meu corpo. Mas no fundo ainda havia um comportamento transtornado em mim, pois eu passava a semana inteira comendo “certinho” e me esbaldava aos finais de semana, exagerava mesmo, até passar mal por ter comido tanto.


Mudei de emprego, enfrentei problemas pessoais, doença na família, e esse estresse fez com que a compulsão fosse retornando. Comecei a comer escondida do meu esposo, a comer escondida no trabalho. Voltei a fazer uso dos laxantes. Comecei a fazer do exercício físico uma obrigação na minha vida, como um método punitivo e compensatório. Mas dessa vez eu resolvi buscar ajuda profissional, pois sabia que o meu problema vinha desde a adolescência e eu precisava de auxílio para compreendê-lo e dar a devida importância a ele. Acabei descobrindo e me encantando com a linha da nutrição comportamental, da alimentação intuitiva e consciente. Entendi que seria a partir disso que eu poderia melhorar de fato a minha relação com a comida e o corpo.


Procurei uma nutricionista comportamental e encontrei a Nathalia Duval. Iniciei o meu tratamento com ela há 2 anos, juntamente com o tratamento psicológico. Com esse processo aprendi que as dietas não funcionam a longo prazo e acabam prejudicando o nosso comportamento frente à comida. Aprendi a não classificar os alimentos como vilões e mocinhos. Aprendi a dar atenção às minhas vontades, a comer o que eu quero e gosto, e não comer algo por obrigação, somente por ser saudável. Aprendi a ouvir o que o meu corpo está pedindo para ingerir. Aprendi a comer com mais qualidade e variedade, prezando pela minha saúde. Aprendi a comer quando eu sinto fome e a observar e respeitar a minha saciedade para parar de comer. Aprendi a importância de comer com consciência, estando presente, aproveitando o momento com calma e prazer.


Aprendi que a atividade física é muito importante, mas não vinculada ao emagrecimento, e sim à nossa saúde física e mental. Aprendi a não me cobrar e sentir culpada se em algum momento eu exagerei na comida. Aprendi que nada na vida é perfeito, então não posso esperar que a minha alimentação será 100% baseada na fome e na saciedade, pois há diversos outros fatores envolvidos nisso.


Hoje eu aceito e respeito o meu corpo como ele é, com os seus defeitos, mas principalmente suas qualidades. Com certeza há dias em que a autoestima cai e começo a ver defeitos no meu corpo, achando que tenho que mudá-lo, não me sentindo bonita, pensando em emagrecer uns quilinhos. Também há aqueles dias em que acabo comendo por emoção e me sinto frustrada por comer mais do que eu necessitava.


Porém o amor próprio, a auto aceitação, a relação de paz com a comida, o comer consciente e intuitivo são exercícios diários, que temos que praticar e desenvolver todos os dias da nossa vida.


Tenho gostado cada vez mais de praticar atividade física, me sinto bem ao movimentar o meu corpo e me sinto muito melhor depois. Procuro não relacionar o exercício com o emagrecimento, mas sim com a minha saúde e o meu bem-estar. Opto por exercícios que eu gosto de fazer e durante a semana os faço pela manhã, sendo que o meu dia fica muito melhor, pois eu fico melhor disposta. Aos finais de semana comecei a pedalar, e não por puro e simples exercício, mas sim para descobrir e conhecer paisagens novas, rios, cachoeiras, montanhas, campos, ver e ouvir os animais silvestres, estar em contato com a natureza. E o bem-estar que isso traz é algo que renova as minhas energias!


Hoje em dia me sinto em paz com a comida e o com o meu corpo. É libertador poder viver sem a pressão pessoal e externa para atingir um padrão de beleza que na verdade não existe. Sinto que posso aproveitar tudo o que a vida me oferece de uma perspectiva muito mais ampla, com mais intensidade, aproveitando e desfrutando as coisas que realmente importam nessa vida.


Para mim, passar uma vida inteira fazendo dieta, deixando de comer o que se gosta, indo para a academia por obrigação, recusando convites para sair para não furar a dieta, é estar perdendo um tempo muito precioso com o qual poderíamos estar fazendo coisas que realmente gostamos e que nos fazem bem. Prezar a saúde é muitíssimo importante, mas com equilíbrio. Não adianta se preocupar somente com um corpo saudável e esquecer do mais importante, a nossa cabeça! Já diz o velho ditado, “mente sã, corpo são.” Se estamos em paz com a gente mesma, com o nosso corpo, com a comida, fica muito mais fácil cuidar da saúde do corpo.


Nenhuma pessoa, principalmente nenhuma mulher, deveria sofrer fazendo restrições alimentares, exercícios extenuantes, tudo para alcançar um padrão de beleza imposto pela nossa sociedade. Você não precisa disso para se sentir bonita, para ser realizada pessoal e profissionalmente, para alcançar os seus objetivos e sonhos.


Você pode e deve ser feliz com o que você tem e com o que você é!


Venha descobrir como é bom se sentir livre!”


* Relato e foto enviados pela Raísa, autorizados para divulgação.

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